Desmantelar o crime organizado: O verdadeiro propósito da CPMI do INSS

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O Brasil assiste, estarrecido, à consolidação silenciosa de uma das mais perigosas formas de criminalidade institucional: uma quadrilha de estrutura sofisticada, profissional, infiltrada em diversos níveis do Estado e do setor privado. O sistema previdenciário nacional, em especial o INSS, tornou-se vítima dessa engrenagem criminosa que opera há anos com planejamento, proteção e impunidade.

Não estamos lidando com fraudes pontuais ou com golpistas isolados. O que se instalou no coração da Previdência é uma verdadeira máquina criminosa, articulada e pensada para funcionar como um consórcio de interesses ilícitos. Trata-se de um esquema robusto de crime organizado, com membros posicionados estrategicamente em bancos, empresas privadas, autarquias, órgãos públicos e até mesmo dentro do próprio INSS.

Esse aparato também se espalha para outras instituições, com ramificações no Legislativo, no Judiciário, no Ministério Público, na imprensa e até em organizações sociais que, sob o discurso da defesa dos mais pobres, acabam funcionando como escudos para práticas ilegais. É um Estado paralelo que opera com aparência de legalidade, mas com métodos próprios do submundo do crime. Uma engrenagem onde uns operam, outros protegem, outros justificam – e muitos se calam.

Diante desse cenário, a criação da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) para investigar o INSS não pode ser tratada como um ato simbólico ou uma manobra de ocasião. O momento exige seriedade, profundidade e compromisso com a verdade. A CPMI precisa ser um instrumento de ruptura com o ciclo de impunidade que há décadas corrói os pilares da Previdência Social.

Não podemos permitir que essa CPMI repita os erros das comissões anteriores — como as do 8 de janeiro e da COVID — que acabaram capturadas por disputas ideológicas, blindagens seletivas e pouca disposição para ir ao cerne dos problemas. A população brasileira não aceita mais encenações parlamentares. Exige resultados, apuração rigorosa e responsabilização.

Neste contexto, a escolha do relator é peça-chave. Não se trata de uma simples função legislativa, mas de uma missão institucional de alto impacto. O relator da CPMI precisa ter a coragem de olhar o todo, a frieza de mapear conexões e a independência para apontar os nomes — doa a quem doer. É indispensável que a relatoria esteja nas mãos de alguém sem vínculos com o sistema, com histórico de enfrentamento ao crime institucionalizado e disposto a romper os pactos de silêncio.

Estamos diante de um projeto criminoso de longo prazo, que atua com método, planejamento e apoio interno. Essa rede utiliza os discursos sociais como disfarce e se alimenta da burocracia e da lentidão do próprio sistema de controle. Romper com essa engrenagem exige mais do que indignação: exige método, inteligência e vontade política.

O objetivo da CPMI deve ser claro: desmascarar o esquema, identificar todos os envolvidos — independentemente de cargo, função ou filiação — e apresentar ao país o retrato fiel do que está sendo feito com os recursos que deveriam garantir aposentadorias, pensões e benefícios para quem mais precisa e garantir que esta engrenagem criminosa não consiga mais atuar nem no INSS nem em outros setores da máquina pública.

O povo brasileiro exige justiça. E nós, parlamentares sérios, temos o dever de entregar resultados concretos, e não manchetes vazias. A hora de romper com o sistema de proteção aos criminosos de colarinho branco é agora. A história nos observa, e a sociedade espera coragem.